Uma das coisas que costumo fazer quando estou com tempo livre é navegar um pouco pelo Youtube afim de achar algo interessante para assistir... no último dia 30, mais conhecido como ontem, estava fazendo isso e, por acaso, achei uma entrevista do delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, concedida no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 22/12/2008...
… para quem ainda não sabe, ou não lembra, o delegado Protógenes Queiroz é um dos protagonistas de uma grande operação da Polícia Federal, chamada Satiagraha (ou Satyagraha), que culminou com o desmantelamento de operações que envolviam o desvio de dinheiro público (sim, o seu e o meu dinheiro), corrupção, lavagem de dinheiro, e, claro, com a prisão de grandes banqueiros, diretores de banco e investidores, sendo o mais conhecido e o grande “mentor” o banqueiro Daniel Dantas...
… como mexer em vespeiro já é algo complicado, decididamente o delegado Protógenes Queiroz poderia dizer que a história da sua vida teve uma virada significativa a partir do dia 8 de julho, quando ele resolveu abrir uma legítima “caixa de Pandora dos dias atuais”, tornando-se, acredite se quiser, violão, e não herói...
… para que esse “fenômeno” tivesse acontecido, ou seja, o verdadeiro herói se tornar vilão, foi preciso assistir “pela telinha do televisor” ameaças do banqueiro Daniel Dantas de “contar tudo”, ainda quando da primeira prisão, o que implicou num movimento nunca antes visto de mídia, do alto escalão do Governo e até do Judiciário, na figura do seu representando maior, o presidente do STF, Min. Gilmar Mendes, para limpar a barra daquele que, e isso já era de conhecimento geral ainda antes da Satiagraha, entrasse eleito, saísse eleito, era sempre uma “figura da direita do Brasil”...
… e, claro, como agir nessa situação? Muito simples, atacando aquele que, subitamente, estava adquirindo o status de herói, ou seja, o “líder” da operação, o delegado Protógenes... para tanto, poucos dias depois da prisão do banqueiro Daniel Dantas, entre outras pessoas, com o auxílio de uma mídia visivelmente “desvirtuada”, para não adjetivar de outra forma, viu-se uma mudança de foco, ou seja, não se especulava mais os crimes cometidos pela quadrilha que tinha sido presa, mas sim 1) o uso indevido de escutas; 2) o uso da mídia no fechamento da operação (entenda-se a prisão dos acusados), que, lembro bem na época, se dizia que era “chocante” ver o ex-prefeito Celso Pita sendo algemado de pijama (chocante foi a concessão de habes corpus, mesmo com mandado de prisão por falta de pagamento de pensão alimentícia, algo grave na nossa legislação, tanto que é uma das poucas hipóteses de prisão na legislação civil brasileira, e, como consequencia do habeas, o paradeiro atual desconhecido do ex-prefeito... isso sim me parece chocante, mas infelizmente “não supreendente”); 3) o desvirtuamento do trabalho do delegado Protógenes, implicando, inclusive, na imposição do seu afastamento da Operação Satiagraha, vendida à sociedade como uma solicitação feita pelo próprio, o que significava que nem mesmo seus pares estavam à favor de delegado; 4) diversas outras “farofadas” como CPI´s midiáticas no Congresso Nacional (a maioria já foi extinta) e etc... muitas dessas “manobras” foram desmascaradas algum tempo depois, mas, como se sabe, a primeira impressão é a que fica, e, portanto, com pouco tempo se conseguiu o que queria, tirar o “herói” do jogo e transformá-lo em “vilão”...
… o que foi escrito até aqui, evidentemente, mescla fatos com opiniões desse que vos escreve, pois acompanhei muito atentamente os passos dados nessa operação, especialmente por conta daquilo que mais me estarreceu, que não foram os crimes cometidos antes, pois esses são, infelizmente, praxe no nosso país, mas especificamente os crimes cometidos depois das prisões, de autoria de pessoas do alto escalão da máquina do Executivo e do Judiciário, contra, em grande parte, ao “herói” dessa história toda, à pessoa que teve coragem de se colocar no “olho do furacão”, porque sim, meus amigos, é “olho do furacão” mesmo, e contra uma das pessoas mais poderosas desse país... não é pouco o significado da Satiagraha e é uma pena que o povo não tenha condições de perceber isso, nem a mídia ajude nessa percepção, assim como ajuda muito o povo a se atentar à “mulheres com nome de fruta” e outras coisas realmente mais importantes...
… outra figura que merece grande destaque é o juiz Fausto de Sanctis, pois, quando foi concedido o primeiro habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, pelo presidente do STF, o Min. Gilmar Mendes,, o juiz confrontou a força da figura máxima do judiciário brasileiro, se manteve firme frente às suas convicções e, como se não bastasse, manteve-se como juiz de primeiro grau, para proferir a sentença de condenação, ao invés de se tornar Desembargador do Tribunal de Justiça, numa manobra inacreditável, poucos dias antes do proferimento da sentença...
… só para explicar à quem não conhece a hierarquia do Judiciário, enquanto juiz, Fauto de Sanctis trabalha perante o primeiro grau decisório do nosso Judiciário... tivesse aceitado a vaga para Desembargador do Tribunal de Justiça, 1) teria sido “promovido”, passando a atuar no segundo grau decisório da Justiça (são 3 graus, no total... para que se tenha idéia, o terceiro grau é representado pelo STF, STJ e TST); 2) e, aceitando a vaga para Desembargador, teria de abrir mão de atuar no processo que, ao final, condenou Daniel Dantas e outros criminosos...
… portanto, minhas saudações ao magistrado Fausto de Sanctis, que optou pelos interesses do país, antes do seu, afinal, esquecí de mencionar, além do status, um Desembargador não tem um salário pouco maior que o de um juiz, mas sim consideravelmente maior... enfim, uma pena que o Brasil deixe passar com facilidade a chance de ter heróis de verdade, e não somente esportistas ou celebridades globais...
… em tempo, quero deixar claro que não acho que qualquer agente que tenha adjetivado aqui como herói seja desprovido de erros e percalços... evidentemente que não... acho que ambos podem e devem ter cometido seus deslizes e eventuais excessos no processo todo, mas não tenho dúvidas de que lado estão, e isso é o que me parece mais importante...
… desta forma, me reportando ao início desta postagem, cada pouco que assistia o programa Roda Viva ficava ainda mais enojado com a forma como os jornalistas presentes procuravam tornar o delegado Protógenes “ainda mais vilão”... por sorte, o delegado se saiu incrivelmente bem em todas as respostas, com uma tranquilidade que, confesso, eu não conseguiria ter... e acreditem, o delegado só conseguiu falar um pouco da Operação Satiagraha, não como “suposto vilão”, mas como um dos “agentes policiais envolvidos”, nos minutos finais do programa...
… seja como for, quem quiser assistir e tirar suas próprias conclusões, segue abaixo o programa Roda Viva de 22/12/2008, dividido em oito partes...
